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quinta-feira, 20 de maio de 2010

O crítico e a poeta

À crítica não cabe emoção. Há de se ter absoluto distanciamento do objeto a ser analisado para efeito de formulação de crítica. Pois bem, assim deve ser a coisa; ou deveria ser... Diariamente sou confrontado com alguns textos, quer sejam jornalísticos, literais ou informativos, mas o bichinho que habita em mim, o bichinho que lê procurando os contornos, as nuances do texto, esse sempre acha aqui e ali o quê criticar. Já há em mim esse movimento compulsivo de ler não sou com os olhos despreocupados, mas antes com os olhos inquisidores de quem procura um único motivo para condenar. A crítica não condena e nem absolve; a crítica comenta, confabula, argumenta, compara, expõe, propõe, erra, acerta... Eu olho já buscando o peso do cárcere. Estou aprendendo ainda. Há muito de minha personalidade autoritária e nem um pouco complacente na minha crítica literária. Estou errado, assumo... Mas ao menos já sei disso e buscar o distanciamento devido e desejado é muito mais fácil quando já sabemos de onde partir.

Quando por ventura dou com os olhos em algum texto que desperta vivamente minha atenção, seja pelas imperfeições, seja pelas qualidades estéticas, sinto-me realizado. Pago a conta das horas que passei a folhear páginas e páginas de textos de todas as formas e origens. Nas imperfeições busco as tessituras que seriam adequadas na minha nada humilde opinião. É como reconstruir, tijolo por tijolo, uma casa erguida no universo das boas intenções, mas disforme pela ausência de capacitação de seu construtor. É muito bom achar textos assim, tão ruins que chegam a dar prazer só comparável ao gozo de uma relação. Porque reconstruir, mesmo que à parte, mesmo que oficiosamente, mesmo que secretamente em um pedaço de papel que ficará seguramente esquecido na gaveta, preenche meu pequeno grande ego.

E o que é o crítico afinal se não o cara que se coloca além do bem e do mal e pode tudo porque é dele o papel da crítica. Ele veio para aplaudir ou destruir e por mais que reneguem, na verdade, todos esperam seu veredito para depois enaltecê-lo como grande crítico ou achincalhá-lo como pedante e coisas do gênero. É duro o ofício. Mas e daí? É o jogo que deve ser jogado.

Acontece também o encontro com textos deliciosamente adequados. Textos que, ao contrário dos que pedem reconstrução cuidadosa, estão absolutamente prontos para serem saboreados pelas retinas dos mais variados públicos. Aí também tenho orgasmos, porque ao procurar as imperfeições e encontrar novas proposições estéticas ou mesmo que as usuais, novas leituras, travo um combate voraz com esses textos, torno-me mais rigoroso quando percebo que o texto é bom e ao me aprofundar na análise à procura de um senãozinho, mais me encanto, mais me sublimo, mais me rendo àquelas linhas. Adoro ser derrotado por um bom texto. E assim se deu com a poesia de Mariana Arnoso. Mesmo já tendo retocado aqui e ali, mesmo tendo ganhado algumas batalhas, ainda assim, a beleza juvenil, a leveza, o descompromisso, a linguagem atual e atuante e, mais do que tudo, as inovações estilísticas, me derrotam a cada nova leitura. É um jogo que marco um tento aqui, outro ali; digo: “Aqui ela errou a mão”, mas que ao final, saio do estádio com uma sonora goleada pelas ventas.

É quando a emoção toma a veia fria do crítico. Quando leio a poesia de Arnoso, penso na expressão do rosto dela, em suas mãos rabiscando o papel, buscando um novo efeito. Penso no seu sorriso furtado de um querubim, nas suas inseguranças de uma quase-menina, nos desconsertos já alardeados por ela sobre a sua vida, no seu andar jogado, passos trôpegos, indecisos... Não há como não falar a emoção. Por mais que eu busque o distanciamento, por mais que eu almeje a isenção crítica, por mais que eu diga: “Mariana, entre nós, só arte!”, ainda assim ao deliciar-me com sua poesia, não consigo apartar de mim a Mariana; a Mariana que habita em Mariana Arnoso, a poeta. Quero muito que ela vença, indico o caminho, aponto possibilidades, quase me projeto na sua obra, mas muito nessas horas não é o crítico quem fala, mas o homem por detrás do crítico. E não se separa um do outro. Quando isso se dá, a crítica perde a função. Perde mesmo a sua identidade. Corro esse risco. Sempre acho que no final conseguirei retomar a idéia original e buscar o foco. Mariana Arnoso, a poeta, merece e merece muito que minha crítica e somente ela, fale por mim. Depois, quem sabe, poderei pretender ter de Mariana, a mulher, uma poesia só para mim. Um olhar mais aprofundado dessa que é, antes de ser uma mulher linda e extraordinária, uma poeta bem acima da média em sua produção artística. O tempo dirá se estou certo ou errado. Se agi com independência ou se já os transtornos do desejo falaram por mim. De qualquer forma, em Mariana, o meu lado é o lado dela. Minha rua é a rua dela. Minha praia é a mesma praia dela. Não pego onda como ela, mas não ficaria tão mal sentado na areia apreciando o pôr do sol enquanto Mariana desliza carregada de poesia pelas espumas dos mares do sul.