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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Um Jovem amigo, de 15 anos, propôs-me uma questão: “É verdade que a música Back in Black do AC/DC é uma atrofia de Stairway to Heaven do Led Zeppelin?”
Eis minha resposta:

Caro Gustavo,

É um prazer poder tentar te ajudar na questão Back in Black do AC/DC versus Stairway to Heaven Led Zeppelin, no que tange a possibilidade do que você chamou de “atrofia” da primeira em relação à segunda.

Bem, primeiro vamos tentar entender o que é “atrofia” e se esta palavra pode ser usada na música, ok? Não vou citar, por motivos óbvios, o uso desta em questões médicas-físicas; mas há ainda o sentido figurado, e aí temos: Definhamento, degenerescência, decadência.

Querido novo amigo, parece que está claro, pela interpretação figurada da palavra “atrofia” que sua proposição não é correta. Não há uma relação de “definhamento” de uma música em relação à outra. Talvez você pretendesse usar a palavra “contração”, que quer dizer, entre outras coisas, o seguinte: Ato ou efeito de contrair (-se), encolhimento, diminuição, encurtamento. Em sendo esta a palavra substituta à “atrofia”, poderíamos pensar que sim; uma composição pode por várias questões, tais como: estéticas, sociológicas, mercadológicas, filosóficas, históricas, folclóricas, etc, “contrair” outra composição. Ocorre que, comparando-se as duas composições propostas, não há contração da primeira em relação à segunda.

Passemos, portanto, à outra questão: Mas há alguma relação entre elas? Vamos lá: Nas artes, como na vida, nada se cria, nada é genuíno. Tudo que há são observações acerca do mundo e suas possibilidades. São adaptações ou, melhor, nossas conclusões a respeito disto ou daquilo. Quando compomos – para ficarmos no mundo da música – não criamos absolutamente nada de genuíno, somos um somatório de influências, de aprendizados, de gostos, de referências. Então, poderia sim ser uma composição fruto da inspiração da outra.

Apenas poderia, porque não podemos precisar, já que não as compomos. E muitos morreriam negando até o fim que não se inspiraram neste ou naquele outro. Mas na música, tal qual na literatura, duas formas aparentemente distintas de artes, o traço de “inspiração” é mais facilmente detectável. Numa abordagem livre, eu diria que sim, a música do AC/DC indica, veja bem, indica uma “inspiração” na música do Led Zeppelin. Em literatura há um termo muito comum: “intertextualidade”, que quer dizer, grosso modo, a confecção de um texto com referências claras de outro ou outros dentro dele.

Seria possível a “intertextualidade” nas canções? Sim. Há muitos exemplos por aí... É então o que acontece em sua proposição acima? Não. Definitivamente, não. Mas há fragmentos de “interface”, ou seja, um conjunto de elementos comuns entre duas ou mais áreas de conhecimento, de interesse, etc. A canção do AC/DC parece “dialogar” mesmo que às avessas, com a canção predecessora de Led Zeppelin, canção esta que, segundo os críticos, só mesmo os dois autores da música, Jimmy Page e Robert Plant, seriam capazes de explicar o significado de uma letra tão complexa. E eu concordo! Toda e qualquer tentativa de interpretação da letra de “Stairway...” cairá no mar amplo das cogitações.

Mas do que falam as canções? Que interface poderá existir? Vejamos as letras em livre tradução para o português:

Entre parênteses, minha leitura do(s) verso(s)


Escada para o Céu (Stairway to Heaven)

Há uma mulher que tem certeza [que]
Tudo que reluz é ouro,
E ela está comprando uma escada para o Céu...(ela = morte? A morte parece oferecer uma “saída” para o céu em antagonismo com o inferno)
Quando ela chegar lá, ela sabe [que]
Se as lojas estiverem todas fechadas,
Com uma palavra ela pode conseguir aquilo pelo que veio.
E ela está comprando uma escada para o Céu...

Existe um sinal na parede
Mas ela quer ter certeza,
Pois você sabe, às vezes as palavras têm dois sentidos. (O que é céu e o que é inferno? Juízo de valores? “Você, que me escuta, sabe a diferença?”)
Numa árvore perto do riacho
Tem um pássaro canoro que canta,
Às vezes, todas os nossos pensamentos estão apreensivos.
Ooh, isso me faz pensar,
Ooh, isso me faz pensar...

Tem uma sensação que sinto
Quando olho para o oeste
E meu espírito está implorando para ir embora (a morte como alternativa)
Em meus pensamentos eu tenho visto
Anéis de fumaça através das árvores
E as vozes daqueles que permanecem olhando.
Ooh, isso me faz pensar,
Ooh, isso realmente me faz pensar...

E foi sussurrado que em breve,
Se nós todos invocarmos a melodia,
Então o flautista nos conduzirá até a razão. (Se aceitarmos as regras, seremos salvos pelo flautista (Deus?))
E um novo dia vai amanhecer (a redenção)
Para aqueles que resistem há muito tempo,
E as florestas vão ecoar com risos...

Se tem um tumulto na sua cerca
Não fique alarmado agora,
É apenas uma limpeza de primavera para a rainha de Maio.
Sim, existem dois caminhos que você pode seguir,
Mas no final das contas,
Ainda há tempo para mudar a estrada em que você está. (o livre arbítrio)
E isso me faz pensar...

Sua cabeça está zunindo e não vai passar,
No caso de você não saber
O flautista está te chamando para juntar-se a ele.(flautista = Deus ?)
Querida dama, você consegue ouvir o vento soprar? (dama = vida)
E você sabia [que]
Sua escada jaz no vento murmurante? (a vida esvai-se)

E enquanto nós damos voltas descendo pela rua,
Nossas sombras mais altas que nossas almas,
Por lá caminha uma mulher que nós todos conhecemos,
Que brilha com luz clara e quer mostrar
Como tudo ainda transforma-se em ouro. (a lua (mulher com luz clara) “transforma-se” em ouro (sol) Transmutação entre a noite e o dia. O escuro pode se tornar claro. As trevas podem se tornar o paraíso.)
E se você prestar atenção muito atentamente,
A melodia chegará até você finalmente. (Você será “convencido”)
Quando todos serão um e um será tudo, (a unidade de Deus)
Para ser uma pedra e não rolar. (a imobilidade como resultado final. Aqui a marca do deboche.)

E ela está comprando uma escada para o Céu...(e ela “ainda” quer me convencer de que lá é melhor.)


De Volta ao Preto (Back in Black)

Eu fui dormir
Estive longe por muito tempo (estive ausente, morto para o mundo)
Estou contente por estar de volta, sim (mas agora estou de volta à vida e feliz.)
Estou me libertando do nó corrediço
Que me manteve pendurado até agora
Continuo olhando para o céu (uma possibilidade distante e
Porque isto está me animando com um novo sentido)
Esqueça o carro fúnebre
Pois nunca morrerei (o apego à vida, a recusa em morrer.)
Tenho nove vidas, olhos de gato
Maltratando cada um deles e correndo selvagemente

Porque eu estou de volta (Voltei à vida)
Sim, eu estou de volta
Bem, eu estou de volta
Sim, estou de volta
Bem, eu estou de volta, de volta
Eu estou de volta de preto
Sim, de volta de preto (votei à vida, mas ainda trago a morte, o luto.)


De volta num banco de trás de um Cadillac
Número um com uma bala
Sou um pacote de poder
Sim, eu estou numa peleja com a banda
Eles terão que me pegar se quiserem me pendurar
Porque eu estou outra vez seguindo o rastro
Estou combatendo o fogo aéreo
Ninguém vai me pegar em outra armadilha
Então olhe para mim agora
Estou apenas fazendo meu jogo
Não tente forçar sua sorte
Simplesmente saia do meu caminho (Morte, não me venha agora. Quero viver. Não se imponha a mim. Eu te rejeito.)

Porque eu estou de volta (voltei a viver)
Sim, eu estou de volta
Bem, eu estou de volta
Sim, estou de volta
Bem, eu estou de volta, de volta
Eu estou de volta de preto
Sim, de volta de preto

Longe de vista!!


Bem, Gustavo, está bem clara a interface, não é mesmo? Uma canção, a do Led Zeppelin fala de “alguém” que sente o impulso pela morte e “namora” com esta possibilidade usando metáforas como “Deus Flautista” ou “lua e sol” e ainda questões filosóficas e religiosas para servirem de argumentos ao seu aparente impulso que o levará às escadas que se apresentam para o paraíso. Mas ao terminar, tudo nos leva a crer que ele, o “alguém”, na verdade não pensava em morrer e que estava o tempo todo debochando dessa possibilidade, já que a morte significaria, dentro de todos os juízos colocados, a imobilidade perene. Ele diz textualmente que morrer não é ser livre, é encontrar no “paraíso” (ou no inferno) um “deus” que na verdade é de pedra. A canção nega a morte como sendo redentora. Como aproximação de algo divino. Fantástico, não é mesmo? Filosofia pura na veia!

Já na canção do AC/DC a coisa rola um pouco na contramão. Alguém que estando “morto” quer voltar a viver. Apega-se às novas oportunidades que a vida pode proporcionar. E ele rejeita severamente a morte, mesmo se recusando a abandonar o preto como sua cor, afinal, ele voltou e está feliz. É uma canção muito mais simples, quase nada mesmo de metáforas, até certo ponto, pobre em comparação à anterior, mas que como interface a uni-las, a questão da morte e a negação às coisas naturais, enquanto ordens.

Volto a lembrar que minha leitura é livre e não é, por isso mesmo, detentora de qualquer “verdade”; mesmo porque, se houver uma verdade legítima na interpretação das letras acima, ela de certo pertence aos seus autores.

Gustavo, alonguei-me muito, não é mesmo? Mas o seu questionamento, embora pudesse não parecer, foi interessante e inteligente e, penso, merecia uma resposta razoável.

Forte abraço, amigão!

Fernando Casaes

2 comentários:

  1. Contundente análise.Desde a primeira vez que li,o parabenizei com grande mérito.
    Não é à toa que seja um amigo que tenho profunda consideração.

    Abraços,do "Jovem amigo de 15 anos",Gustavo Vassoler.

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  2. A visão que vc tem da vida e das coisas,faz de vc uma pessoa extraordinária.Te gosto muito viu?
    Beijos no coração,afagos na alma.
    Valéria pires Cardoso

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