Em uma noite do ano de 2006, um amigo que atendia pela alcunha de "Mosquito" (por onde você anda, inseto?) veio com o embrião daquele que seria o primeiro movimento poético da Faculdade de Letras da UERJ em muitos anos: O TUdiSmo! Bem, foram alguns saraus, muita empolgação, aprovações calorosas, mas muito pouca divulgação. Estávamos para concluir o curso e as atribuições inerentes a todo fim de curso nos limitava. Deixamos passar, talvez, a chance de, assim como os modernistas de 22, lançar aos olhos de nossa literatura uma nova proposta.
Mas o que é o TuDismO?
Abaixo o Manifesto Tudista escrito por mim e parte das poesias tudistas que escrevi. Lamentavelmente, não fiquei com nada escrito pelo Mosquito e por outros que se engajaram...
O manifesto Tudista
(h)ora se inicia (ou se termina)
O que no plano do palco das in-dimensões
Nomearemos de Tudismo.
Tudismo é nada com tudo dentro.
È um contentamento descontente
Que bate n’água e respinga na bunda
Da gente.
Tudismo é a água, é a bunda e não é agente.
Tudismo é o monstro do armário e é a criança
Que gargalha excitada de medo.
Tudismo é o armário e o oco dentro.
Tudismo é a praia que não se vê diante dela
É o mar que se toca no deserto Hún mido.
Tudismo é a contra-mão da contra-mão do ir e vir contínuo.
É o homem e a mulher que não vingaram
Mas que se roçam nos buracos fundos dos ranchos
Bem pra lá do fim do mundo.
È o fim do mundo pelo começo.
É o começo que não se inicia.
É a poesia que não se entende
Porque entender é burrificar
A capacidade humana de se alienar.
Tudismo é um grito sem voz.
Tudismo é o soco no estomago,
Mas não é a dor demandada,
Pois que a dor pede continuidade
Na mazela do sofrimento Un mano
E o tudismo não é humano
É antes, cósmico no sentido palpável
É a estrela que se pega e o sol que não queima
A lua que não se pisa e o céu que rasga
Não sendo de brigadeiro.
È o poeta fingidor falando verdades.
É a im-verdade contida na lágrima
Que cai da boca e atinge, doce, os olhos.
Tudismo é o sexo não-feito com orgasmo pleno.
É o barco na estação de trem e é o trem
Esperando um neném.
Blém! Blém! Blém!
É Belém! Não, não é.
É Belém! Sim, pois é.
Tudismo é o sangue Hazul-vermelhado
Que pinga do telhado das veias dos
Gatos pardos e das gatas em teto
De zinco quente.
Tudismo é a gente. Agente. Há gente. À gente. Des-ter-gente.
É a desconstrução sem querer desconstruir
Mas já querendo desconstru-ar.
É voar. Viar. Vear. Vuar. Vá-ar.
Tudismo é tudo o que não cabe dentro.
Não pelo tamanho, mas pela forma.
Não pela geometria, mas pela filosofia.
Não pelo blá, blá, blá, mas pelo nada.
A forma do nada com nada dentro
Ou tudo fora.
O ponteiro gozado da sem-hora.
O pinto molhado do semvergonha.
O molhado seco do espesso vácuo do tempo.
O Tudismo nasce morto. Nati-vivo.
Não que não respire, mas antes é mofo.
Missa de déssimo-cético dia
Orada as vinte e sete horas e setenta e treiz minuetos.
É o pum dos críticos de artes
Que esvaziam-se com a delicadeza de uma gazela
Estuprada pelo Bambi.
Tudo é Tudismo e o tudo não é nada.
E nada é imaginar o que seria ser tudo.
Tudismo é a des-regra de vinte e oito dias.
É a des-graça dos entendidos ignorantes.
Tudismo é por fim e por definição
Todo o léxico numa caixa de fósforos
Que não acendem por discordarem
Do aperto que passam e aí explodem
Pela combustão de suas en (es)tranhas
Re-xeadas de çoberba.
Obituário do autor: Senhores, o Tudismo não é nada disto tudo. É muito mais ainda.
O cor- pûs Zumano
As zunha quebradas dó-em.
Os zouvidos zumbem zunindo inflamados.
Os zólhos ardem com a pimenta dos-houtros.
As zorelhas gotejam a cera podre das zabelhas mortas.
Os zossos estalam velhos e desconformes.
Os zovos já não fabricam, putrificam abraçados.
Os zílios carregam no telhado o pó dos ácaros.
ZzzzzzzzzZzzzzzzzzzzzZzzzzzzzzzzZzzzzzzz!
O zumbigo zinzinvolve um zodamoinho sujo.
As zélulas murxam zem se falar.
As zitocôndria (que que é que é isso?) zitocondreiam 100 directv.
nOs zútero já não cabem tanto ka-brito (Pelé Garrincha?)
O zóvario já cospe sêmem e vomita çangre.
A Zuleika. Ah, a Zuleika e suas pernas que não podemos ver.
Como seriam as pernas da Zuleika?
Os zoelhos seriam gordos ou perfurados?
E os zeniscos? Futebol ou feijoada?
A Zola dos pies. Caminhos de ratos in-esgotáveis.
O zu á parte mais dolorida,
É a entrada e a saída da zaliva.
A zozota ta carcomida pela falta D.
E eu aqui ziguezagueio tudo,
Sem nada dentro.
Dentro-fora. Fora-dentro.
Mas aí, como gostoso dói.
Ai, o vento e o em-si-mento!
Som-neto da Hermicéia da Anunciapção
Oh lídicestuosa muliér de armento
Que na dogbiase plende o paluncro
Cordifixa obtume do fódico buncro
A catética catalumia do palarciento.
Aquicestrosa massífera pergaminhoca
Hermicéia abilvere de tam vagenho
De algodozar junéstico tilengenho
Quedam las píderas sam estrepilhoca.
Gibaniste aguadame lo paragodão
Já que vume se dá ao fumeríndor
Capistraneiam sem vél o hermigrão.
Oh, simitrica portesa de dormidor
Jacatarda na loditarde de Urdião.
Bomeríade de rifo a sae de polor.
T= N-T.xy.(h-8) + 4x
Ai as phórmulas
Assim estampadas no papel
Parecem sereias querendo secço.
E a hipocrisia dos comprimidos para dormir
Não merecem minha atenção.
Co-respondo a gula fálica
E vou me deitar-me antes que
O matemático re-invente a pólvora.
Tudonudismo
Uma mulier comendo romã tira a roupa rota do rei de Roma e rema rio a-rriba roendo a ratoeira do rato roxo que de raiva da rapariga ranheta arranha a aranha dela e... acabou-se a ridi-cu-lá ristória.
Amorrrrrr que?
Me passa a escova?
Tá quente.
Não, a escova!
Cadê o ferro?
Te amo!
Me passa a pasta?
Tá seca.
Não, a pasta dentifrícia!
O tubo é de prástico.
Te amo!
Me passa a tua boca
Qué não!
Não te amo mais.
Tap!
Som – neto matemáticuzinho
Um mil novecentos e deiz
Quatro centos e quarenta e seis
Mil novecentos e vinte e treis
Quarenta e quatro mil réis.
Trezentos e quinze dezenas
Mil duzentas e mais cinqüenta
Três milhões e menos sessenta
Setenta mil e cinco centenas.
Onze! Mil e quinhentos avos
Seis mil e duzentos milhões
Uma centena de dois centavos
Oitenta e cinco mil bilhões
Sete centos de três dollavos
Novecentas dúzias de anões.
O cuspe
Na parcimônia ensopada de tua boca
Entre o prisma anasalado de tuas coxas
Descanso meu ganso tragi-cônego.
Ah, quanto hálito in-fronhado
Na brancura negresca da tua trama
Ai minha cama! Ai minha cama!
Que não se quebra com tão empenho.
Oh doce ensopado que não tenho.
(um abutre ia passando na lama in-cardíaca de meus olhos e deixou-me a conta seca das (h)oras mortas para que à noitinha, quando o verme vier roer-me os ossos, tu possas dizer do amor que teve: que não se findou posto que é grama, mas que seja etéreo enquanto espume.)
Cripta crepuscular dos bondes d’alma
Leva para além de minhas esferas
A boca que escarra na minha boca
(Ô mau hálito dus inferno!)
E a mão que balança o berço
É o desprezo gozado do teu terço
Que minha canção da prima-Vera
Possa te dar-te o cheiro da quimera.
(um mágico ia defecando pelos caminhos de meus im- testinos e plantou a raiz pútrica das certezas desavisadas pra que dimanhãzinha, quando o outro verme roer-me os óios, tu possas dizer do fogo que teve: caminhando e largando e medindo a combustão, somos todos inguais pênis eretos ou não.)
Oh, incandescência invulgar da minha indecência
Que queres apartar com tuas carnes penduradas?
Sai de mim, em nome do senhor!
Vá de reto, ó doce vampira vagabesca.
O cuspe que me tens é pouco quente
Na tua cara nasce na testa um vago dente.
E a serpente do Adão, aquele rapagão
Insiste em dar a curva e cravar-te o agulhão.
A métrica desperfeita
Um ovo quebrado é o mesmo dado
Ao lindo gado
Que bate com os burros n’acerca
E que vomita a cola amerelada das (h)oras e que não pára de gemer como um bebê,
Que não pára o fluxo hemorrágico da primeira veiz
De uma vaca.
A conta matématicazinha dos pulmões em-venenados pelos vícios do tábaco e do tráfico e do médico.
-Tens um enfizema enviesado
Que vai te custar um trocado.
-Arranca.
- Teu dente amarelado não suportaria.
- Espreme.
- Lá vai a força abrupta de minhas unhas! Ummmmmmmmmmmmmmmmmmmm!
- Ai!
- Doeu? Em mim, não!
- Caguei-me.
- Toma a conta de teu sascrifício.
- Toma o tiro, seu ladrão de mulherrrrr!
Bang! Bang! Bang!
E o çangre se esparrama pelo chão igual batatinha quando nasce.
A espera do filho que ia nascer
Abestado desinfeliz de çangre e pau
Fruto azul de magreza gotejante
Filho da puta véia debutante
De minha hercúlea trama teatral.
Que prazer ornitológico fatal
Com-sumiu com a energia de um meliante,
Em tua pobre vidinha de militante,
A minha ascendência ancestral?
Torção de minha ovínia substãncia
Em que privada irás recordar a infância
Violentamente afônico, a tremer?!
Ah! Possas tu parir, feto comprimido
Plastificadamente diluído
Na eternidade do não ter!
Eu ti amo
Eu ti amo d+
Ti amo tanto que meu pranto é primavera.
Eu ti amo, já ti disse, meu amor?
Ti amo mais que amo a minha mãe
Ti amo mais que amo a minha charrete
Ti amo mais que amo o meu zumbigo
E que o meu patinete.
Ah, eu ti amo. Te digo di novo.
E quando eu morrer quero que você ponha no meu túmulo a frase do Camões:
“Amar como eu ti amo,
ninguém jamais amará;
sofrendo constantemente
somente por ti amar”
Viu bem como ti amo?
- Apaga a porra da luz e vem dormir, ô mala!
- Mogoei, não ti amo mais.
Ulisses, de James Joyce.
Não li Ulisses e nem Joyce.
Não li Olavo e nem Bilac.
Não li Machado e nem Alencar de Assis.
Não li Júlio Antônio e nem Cleópatra.
Não li Káfka e nem Káfta
Não li Vinícius e nem Jobim
Não li Mateus e nem os saduceus.
Não li teus livros e nem os meus.
Ah, esse transplante de córneas que não chega!
De liberdade e prisão
A liberdade clandestina
Acorda menina, que tua mãe saiu.
Não queria torcer pepinos?
Então, acorda que jástão maduros.
A liberdade coristina
Espirra menina, que tua mãe saiu
Não queria cheirar meninos?
Então, espirra que jástão batidos.
A liberdade bemcretina
Morre menina, que tua mãe não liga
Não queria mudar o mundo?
Então, morre que os politicus jástão.
A liberdade beneditina
Levanta menina e anda, que tua mãe tá dando
Não queria ver o rosto santo?
Então, levanta que jástão escarrando.
Prisão clandestina
Não saia menino, que teu pai chegou
Não queria emborrachar o couro?
Então, não saia que jástão queimando.
Prisão coristina
Fique ai menino, que teu pai chegou
Não queria enrolar barbante?
Então, fique aí que jástão fumando.
Prisão bemcretina
Anime-se menino, que teu pai nem liga
Não queria alienar o mundo?
Então, anime-se que os discipulus jástão.
Prisão beneditina
Ajoelhe-se e ore, que teu pai tá fodendo
Não queria rir do rosto santo?
Então, ajoelhe-se e ore que jástão fazendo.
Santa Maria, Pinta e Nina
Trêiz moçoilas elegantes:
(Cobra, jacaré e elefante)
Estão esparramadas rua a-rriba
Na esperança de trêiz rapazes arfantes:
(veado, unicornio e rinocerante)
Santa Maria!
Que pinta!
- Nina, vem já pra dentro que isso não é vida!
- Mamãe vem já pra fora que papai muito demora!
- Nina vem já pra fora que isso que é lida!
- Mamãe vem já pra dentro que papai chegou agora!
Cesário dos Anjos
Oh, verme maldito que me rói
Rói mais um pouco da minha vida
Verme querido que me rói.
Oh, minha cidade mal-diçouvida!
Oh, minha casca rala de ferida
Que o rato nojento da putrefação
Levará ao Lusotupínico impuro
A dor da eterna podridão.
O mistério do moço
Há trêiz coisas misteriosas entre o céu e a pedra:
A premeira é çaber por quem os sinos dobram.
A segunda é ssaber como dobrar um sino.
E a terceira é entender a importância desta operação.
Sim, porque não há de ser fássil imprimir força
De tal maneira que se poça curvar um padre.
Até porque não se curva um padre c’um pedido
Mas sim c’uma ordem do padre superior.
Da mesma forma o sino, que é o badalo do padre,
Não se dobra facilmente a um sorriso vago
Há de se ter boa estampa e vintém para tanto
Afinal a casa do padre, morada do sino, rói.
Por tanto o segredo, seu moço, do sino
É bater pra dizer ketábein vivo
E não sucumbir a ruína das torres fálicas
Onde os meninos badalam com o badalo do padre.
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Eu me lembro muitíssimo bem do tudismo.... era muito bacana.
ResponderExcluirSaudade daquela época.
Obrigada pela tarde de ontem. Beijocas.
Lívia.